«A guitarra, esse instrumento de vozes tão melodiosas, que, como nenhum outro, fere tão intimamente as fibras do coração fazendo-nos ouvir os cantos, as canções mais populares de nossa terra, esse pequeno instrumento, que traduz a alma do povo portuguez, jazeu longos annos no mais completo abandono; a ella votaram os nossos antigos o mais completo desprezo, e ai d’aquelles que se atrevessem a dizer «toco guitarra».
«Durante annos viveu nas espeluncas mais ordinarias, e eram d’uma má reputação, todos que dedilhavam as suas cordas.
«Destinos do acaso: o piano entrou nos cafés, elle, que nascera na opulencia, e a guitarra sempre modesta, com os seus tons tão melancholicos, com os seus gemidos, entrou triumphante nos salões da nossa primeira sociedade!»
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O sr. Affonso Lopes Vieira, que ha pouco deixou os bancos da Universidade, consagrou uma das suas poesias á psychologia do Fado.
Transcrevo algumas quadras:
Fados de Portugal suspiros e ais,
Fados que sois a nossa alma! Fados
Que de tristes saudades me falais,
Oh suspirados, oh amargurados!