Agora rasgai-lhe o coração com a incisiva lamina da saudade, e dizei-lhe: «Sorri, consola, fortifica.»
Ah! não póde ser!
Tornado a Portugal, o dr. Filippe Sullivan proseguiu{18} na sua brilhante carreira por cima dos louros que lhe desfolhava todas as noites a mão namorada da Gloria para elle calcar no dia seguinte.
De triumpho em triumpho, o dr. Filippe Sullivan habituara-se a esquecer-se de si proprio para viver d'essa vida exterior que de toda a parte o reclamava, e que todas as noites o preoccupava com os mais difficeis problemas phatologicos. Frequentava a sociedade, a melhor sociedade até, mas atravessava ordinariamente as salas com alguma grave preoccupação a trabalhar-lhe o espirito. Era novo e gentil, via ondular diante de si os vagalhões doidejantes da valsa, mas a profissão completára n'elle, como quasi sempre acontece, a educação. Fora moço sobre os livros; deixára de o ser á cabeceira dos doentes. Não conhecera aos vinte annos as tentações mentirosas das salas, de modo que um baile era para elle um espectaculo alegre, mas unicamente espectaculo. No theatro, seja qual fôr o nosso enthusiasmo pelas tempestades do drama ou pelas graciosidades da comedia, ha sempre a barreira do tablado a distanciar-nos d'essa formosa chimera cujas sensações nós fomos comprar. Tambem para o dr. Filippe Sullivan havia nas salas do baile a mesma linha divisoria que o separava dos esplendores do festim: essa linha era a posição austera do medico. «Os outros, dizia elle desculpando a sua isempção, os outros podem ser do baile, porque são de si mesmos; o medico não é de si proprio, não póde ser de ninguem. A noite é a suspensão dos cuidados para as outras classes; mas ao medico cumpre estar apercebido de noite, porque a doença tem muitas vezes a cobardia{19} d'um salteador nocturno, e accommette principalmente de emboscada.»
O Amor via-o pois de longe a fumar os seus bellos charutos havanos e a conversar discretamente com uma ou outra pessoa, mulher ou homem, a serenidade era a mesma, e a Gloria, brincando com os anneis do seu a esse tempo negrissimo cabello, sorria por detraz da cadeira e dizia para o Amor que ia redemoinhando na sala de mãos enlaçadas com a Valsa:
«Vai, louco, nos braços d'essa louca, creanças doidas que pareceis correr enamoradas das borboletas da noite. Olhai que apressadamente desfolhaes as flores do vosso breve reinado n'esse ondejar vertiginoso. Escreveis os vossos poemas sobre o carmim das faces, e a aurora primeiro, depois o somno, apagam os vossos poemas. Os meus escrevo-os no bronze da historia para se lerem na eternidade dos tempos. Por isso não doidejo. Eu trabalho para o futuro; vós trabalhais para a noite. Ide, voai, que eu fico com os meus predilectos.»
E o dr. Filippe Sullivan deixava-se ficar sentado commentando alegre e espirituosamente, com um ou com outro, os mil episodios do baile, essas breves loucuras côr de roza atravez das quaes um espectador sereno entrevê sempre um demonio zombeteiro a rir-se mephistophelicamente.
Agora passa a viscondessa entre as nuvens alvacentas do seu pó de arroz, reclinada no hombro de um cavalheiro cuja casaca vai enfarinhada da serodia mocidade da viscondessa.
Logo ha-de passar o leão decrepito e amoroso a{20} rociar de agua circassiana a pomba de vinte annos que elle empolga nos braços com os ademanes grotescos que eram moda no tempo dos francezes.
Depois... Depois o grande carnaval das salas em todo o esplendor dos seus fatos de lentejoulas e dos seus pingentes de pechisbeque.