Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle.

Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do Matrimonio segretto, com as duas maiores notabilidades cantantes da epocha,—a Sontag e a Damoreau-Cinti.

A vida do nosso touriste foi, durante o tempo que seguiu a Malibran, uma serie de viagens,—as mesmas que ella fazia,—de ceias, de pic-nics, de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os falsos sorrisos desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem, foi um inferno de ciume.{23}

Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de quem lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu desarrasoado; mas diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra onde ha theatros.

Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se perdidamente amado, e perdidamente namorado.

Duplo erro!

O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico, as ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas architectada sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a gloria.

Mas—desapontamento horrivel!—o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou.

Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre violinista Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis.

Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice de um conviva.