—Que foi? Que é? perguntaram elles.
—Ahi fóra cahiu gente!
—Quem havia de cahir, senhor!
—Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois.{8}
—Um grito!
—Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza.
Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles accenderam o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas fragas á procura d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir alvarmente e a dizer que eu era dado a medo de bruxas. De repente pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei silencio. Os marinheiros trocaram entre si um olhar ironico, que para logo se volveu credulo, porque distinctamente ouviram um gemido.
—É alma perdida! disse um com voz tremula.
—É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se nos orientamos.
Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais debilmente. Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens, arrancando da mão d'um a lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um vulto estendido no chão. Baixei o lampeão e reconheci um corpo de mulher. Os marinheiros estavam attonitos e como que receiosos d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o corpo. E—surpreza extraordinaria!—vi uma bonita mulher, se bem que mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. Estaria viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como cadaver. Os marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a transportal-a ao barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os ferimentos e nem tempo tivemos—eu pelo menos—para pensar no extraordinario do acontecimento. Hoje é que eu, ainda que mal, reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja absurdo.{9}