Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de contrariedades, acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em imaginar o goso que vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe muito inferior ao que se esperava. Ás vezes ou... sempre;—sempre é que é. Passados annos, se a gente[{90}] se lembra de uma festa em que esteve, de uma hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve de bom, e já não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.

A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu saboreio as minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle que as realidades me déram...

Um pic-nic é, certamente, uma festa muito convidativa... no programma, quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a cada um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.

Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas essas combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo agradavelmente.

A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou á beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos os dias, um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da nossa vida ordinaria.

—Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.

Pois bem! um pic-nic é uma variante á gallinha do nosso espirito, é uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como distracção.[{91}]

Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos exoticos: ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'um pic-nic e que portanto faz questão ministerial dos foguetes...

—Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que os não dispensa?

—É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata de uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja completa a diversão.