Eras um paiz que mantinhas o esplendor da tua individualidade sem fechares a porta á invasão dos progressos moraes e materiaes do seculo.[{240}]
Tinhas o teu idioma, as tuas danças, os teus cantares, os teus espectaculos.
Tinhas reis como S. Fernando, poetas como Campoamor, pintores como Murillo, campeadores como o Cid, oradores como Castelar...
Um dia, porém, uma d'estas grandes fatalidades, que pesam sobre todas as nações, avergou a tua nobre cerviz, e um rei estrangeiro, não podendo conter a impaciencia das ambições, desceu do throno a que fôra chamado, depondo nas tuas mãos a corôa que de ti havia recebido.
E como são sempre os clarões nascentes da aurora que succedem aos clarões moribundos do occaso, como é sempre a flôr que succede ao cahir das folhas mortas, tu quizeste levantar sobre as ruinas da monarchia a bandeira vermelha da ideia nova.
Havia n'essa tua aspiração, ó Hespanha, um tributo nobilissimo á memoria do teu ultimo rei.
Elle descera do throno com a magnanimidade com que Codro se expozera á morte, e a Hespanha, como Athenas, queria deixar para sempre devoluto o solio por não haver rei mais nobre que viesse occupal-o um dia.
Não rolaste pelas ruas da capital, cuspindo-lhe as injurias da canalha, a corôa da monarchia.
Não, archivaste-a na sancta-sanctorum das tuas gloriosas tradições, porque essa corôa a cingira D. Amadeu, e D. Amadeu fôra o omega da realeza hespanhola.
Não a consideravas escarneo; veneraval-a como reliquia.[{241}]