A justiça do tribunal perdoará tambem, esperemol-o.
Porque, vós o sabeis melhor que eu, a justiça é para a sociedade o que o pae é para a familia: o poder supremo.
A vara, que representa a auctoridade, é cajado e látego: o mesmo na familia que na sociedade.
E sendo esta dupla auctoridade uma personalidade moral, que póde symbolisar-se em Jano, o deus bifronte, não esperemos vêr umas faces illuminadas pela luz evangelica do perdão e outras avincadas pelas rugas sinistras da severidade.
E esta grandissima catastrophe ficará para sempre archivada na tradição de Coimbra, com justos applausos da historia, porque ella porá a descoberto a grandeza de muitas almas: da victima que morreu sem odio; do encarcerado que chora o arrependimento de culpa que não teve: do pae que perdoou; e de vós todos, que não consentireis mais que dentre vós saiam desgraçados para o carcere e cadaveres para o cemiterio.[{106}]
OS ANNUNCIOS
O annuncio é o seculo.
Saber annunciar é saber viver. Quem melhor annuncia mais ganha. Dize-me se sabes annunciar, dir-te-hei quem tu és. Ha por ahi algumas raras pessoas a quem repugna a vaidade de se dizer no annuncio o que se não devia dizer, e mais do que se devia dizer. São os retrogrados, os que ficaram parados no caes quando o progresso partiu a explorar mundos desconhecidos, os pagãos da antiguidade que só conheciam como meio de publicidade a trombeta da fama, são finalmente os que vivem no seculo e não comprehendem o seculo. Suspiram ainda pelas epistolas do Braz Tizana, acendem a véla com lumes de pau, e preferem o mysterio do logogripho ao pregão do annuncio. Detestam todas as modernas manifestações do pensamento—o annuncio, a reclame, a abundancia de jornaes e a alluvião de lumes promptos de phosphoro. De lumes promptos de phosphoro! Sim, senhores.[{108}]