Refere o opusculo outra aventura do infante D. Miguel em Paris, e esta é mais consentanea á sua indole de principe estouvado e desenvolto.

Deu-se o caso com uma capellista da rua des Fossés-Saint-Germain. A franceza era encantadora: charmante, diz Mesnard. D. Miguel, não fazendo reparo ou não se temendo de um sujeito que estava á porta, e que era o amante da capellista, quiz, como pretexto para demorar-se, que ella deitasse a loja abaixo, que lhe mostrasse muitas das mercadorias guardadas nos armarios. A franceza trepou ao balcão para descer um pacote, e o infante beliscou-a ou palpou-a. A capellista gritou, e o amante sovou D. Miguel, que teve de recolher-se ao leito no Hotel Meurice, onde se havia hospedado.

Isto sim, isto é verosimil e concorda com outra aventura que D. Miguel praticára, quando já desthronado, em Roma, e que logo contaremos.

Finalmente, o opusculo dá-nos noticia de que D. Miguel, antes de sahir de Vienna para Portugal, convidára officiaes e cortesãs para ceiarem com elle depois do theatro. A ceia, que começára á meia noite, terminou ao amanhecer, mas o infante lembrou, para remate da festa, que se queimasse um punch á franceza. Dito e feito. Um leque de chammas phosphorescentes irradiou da poncheira, e á volta, de mãos dadas, n'uma farandola patusca, o infante e os seus commensaes giravam n'uma especie de dança macabra, que tinha alguma coisa de satanica. Terpsichore não regeu tão ordenadamente a chorea, que podesse evitar o tombar a mesa e a poncheira. Era natural depois de libações capitosas. O liquido inflammado alastrou no soalho, e pelas frinchas das tabuas cahiu n'um palheiro que ficava nos baixos da casa, incendiando-a.

Duas mulheres e um official pereceram no incendio, e D. Miguel, cujo fato ficára queimado, correu grande risco.

Não serei eu que prodigalise elogios á patuscada e ao punch, se bem que honestos varões (já não direi o mesmo das donas concomitantes) teem, com o baptismo do punch, sahido excellentes maridos. Mas tambem não lançarei á conta das responsabilidades de D. Miguel o desastre da mesa e a coincidencia de haver palha em baixo quando elles comiam em cima.

Aqui está o que pudémos obter da collaboração de tres homens: o barão de Eschwege, J. B. Mesnard e Barreto Feio.

É pouco, sobretudo se attendermos a que foram tres os informadores, todos elles dispostos a não ter complacencias respeitosas para com D. Miguel de Bragança.

Passarei agora a occupar-me da annunciada aventura, que corre parelhas com a da capellista em Paris. Vamos pois ao encontro de D. Miguel, que se passou a Roma depois da convenção de Evora-Monte, e admiremos-lhe o bom humor com que forçadamente desceu do throno.

Não me demorarei a meditar sobre o texto do celebre folheto D. Miguel em Roma (Londres, 1844), que pregôa as miserias que aquelle principe soffrêra na cidade do papa. E não me demorarei porque, sob o ponto de vista d'este artigo, tenho aquellas miserias por incompativeis com o desassombro de animo com que o snr. D. Miguel de Bragança refinava em galanterias audaciosas.