Maximiliano estranhou a falta de arvoredo, mas, por Deus! não faltam arvores no conjunto panoramico de Lisboa, vista do Tejo. É verdade que é núa e arida a serra de Monsanto, pedregoso o corucheu da serra de Cintra, mas que opulencia de vegetação no pendor e na base d'esta serra famosa! E o arvoredo da Tapada da Ajuda? E o da cêrca das Necessidades? E ainda o do cemiterio dos Prazeres? E as manchas verdes com que tantos jardins particulares cortam a brancura alegre da casaria? Decididamente, o archiduque Maximiliano teve um mau dia de chegada, escuro e melancolico.

Mas o que eu admiro são as suas saudades pelo cypreste, arvore funebre, de que todavia alguns exemplares poderia enxergar no cemiterio dos Prazeres, que aliás menciona. Quanto á palmeira, que é realmente uma bella arvore ornamental, Maximiliano deveria saber que essa arvore é filha dos climas orientaes, e que só exoticamente vegeta nos paizes do occidente.

Depois de poucas linhas consagradas á impressão geral que lhe causára o panorama de Lisboa, Maximiliano principia logo a descrever o interior da cidade.

Quanto ás ruas e ás praças, o testemunho do archiduque é-nos mais favoravel.

Falla de longas ruas regulares e bellas praças como não ha muitas nas capitaes europêas. «A Praça do Commercio é verdadeiramente magnifica, o centro da cidade nova; todos os seus edificios são uniformemente construidos em estylo neo-romano, e de uma brancura deslumbrante (éblouissante). Muitas largas ruas parallelas confluem perpendicularmente a esta praça: as mais bellas são a rua Augusta e a rua Aurea

Chamar o centro da baixa ao Terreiro do Paço é uma liberdade de poeta e de... principe, pois que uma e outra coisa era Maximiliano.

Á rua da Boavista chama-lhe de Buanavista, e menciona-a talvez pela circumstancia de conduzir ao palacio das Necessidades, onde a rainha D. Maria II habitava.

«N'estas diversas ruas encontram-se vastos edificios, verdadeiramente dignos de uma grande cidade, com estabelecimentos ricamente adornados. Perto das Necessidades as casas tornam-se mais irregulares e menos bem alinhadas: conforme ao gosto portuguez, são pintadas a oleo em tons assanhados (criards) verdes ou azues.»

II

Maximiliano refere-se á cidade velha, dizendo que ella fórma um completo contraste com os novos bairros. Classifica-a de medonho zig-zag que sobe e desce: as ruas cheias de excrementos de animaes e de ratos mortos. Julga precisa uma grande coragem para habital-as, e ainda para transital-as.