Que lhe cahisse o burrinho.

Isto, leitor, não póde ir de uma assentada. Seguiremos a jornadas vagarosas o itinerario do infeliz archiduque.

III

«Faz-se entre nós uma idéa muito falsa de Lisboa. Figuramol-a uma cidade rica em monumentos historicos, graciosissimamente situada, e beneficiada por um clima dulcissimo: sonhamol-a em todo o brilho das tintas meridionaes, em toda a magnificencia de uma vegetação tropical; imaginamos que o Tejo deslisa sob um céo azul á beira de antigos palacios de marmore, navegado nas suas ondas argenteas por centenas de gondolas doiradas e por galeões carregados de metaes preciosos; o povo de Lisboa suppomol-o alegre, cantando estancias melodiosas ao som da guitarra. Pura phantasia tudo isso!»

A fallar verdade, que culpa podêmos nós ter do que os outros sonham a nosso respeito?! Que responsabilidade nos póde advir do facto de ter o archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, imaginado em Lisboa uma vegetação tropical?! Tropical! é forte. Pois não sabia sua alteza qual era a nossa situação geographica no mappa-mundi?! Suppunha-nos na Africa ou na America?! Imaginava-nos talvez em Borneo ou Sumatra, na Oceania? Ah! infeliz archiduque, que culpa tinhamos nós dos erros geographicos de sua alteza e dos seus compatriotas?!

E as gondolas doiradas?! Quem nos inculcou na Austria como sendo o paiz das gondolas?! Vossa alteza sonhou! E nas memorias nublosas d'um sonho confundiu Veneza com Lisboa.

Quanto aos galeões carregados de metaes preciosos, bem poderia sua alteza tel-os visto, se se lembrasse de visitar Lisboa no seculo XVI. Com uma antecipaçãosinha de trezentos annos—uma bagatella!—teria sahido o sonho verdadeiro. Se vossa alteza, desventuroso archiduque, houvesse chegado a tempo de encontrar el-rei D. Manuel, poderia, visto que estamos em maré de anachronismos, apostrophar com Julio de Castilho os famosos galeões da India:

Lá vem galés Tejo acima!

lá vem as galés d'el-rei!

Quero ir vêl-as á Ribeira;