É visivel a intenção com que madame Carette, referindo-se á princeza de Metternich, embaixatriz de Austria, essa captivante jolie laide que tanta impressão causou em todo o Paris, escreve: «A imperatriz tinha uma grande sympathia por esta mulher seductora, attraía-a a vivacidade do seu espirito e conversava familiarmente com ella quando as circumstancias officiaes e mundanas as reuniam; mas não havia intimidade entre ambas. Com excepção de sua joven prima a princeza Anna Murat, depois duqueza de Mouchy, que a imperatriz estimava muito, nenhuma outra mulher, além das damas de serviço, a menos que se não desse uma circumstancia rarissima, era recebida nas Tulherias sem audiencia.»

Foi o principe de Metternich que no dia 4 de setembro offereceu o braço á imperatriz, que, como se sabe, teve que sahir precipitadamente das Tulherias.

Renunciando depois d'isso á vida diplomatica, o principe reside algum tempo em Vienna, com a princeza, ou nas suas terras da Bohemia. Hoje, a encantadora princeza de Metternich, que tanto ruido fizera em Paris, pela graça do seu espirito e pelo esplendor das suas toilettes, que mandava buscar a Vienna ou que encommendava a Worth, o celebre couturier do imperio, tem a cabeça corôada de cabellos brancos, é avó.

Madame Carette, depois de rebater delicadamente a calumnia que o nome da princeza de Metternich lhe suscitára, lembra que a imperatriz gostava de vêr-se rodeada por uma côrte de mulheres bonitas. Ora madame Carette fazia parte da côrte. Ah! nada se deve perdoar tão facilmente a uma mulher bonita como o lembrar-se de que o foi, mesmo quando não o é já!

II

A côrte das Tulherias, descripta por madame Carette, revela a vida um pouco frivola, e até um pouco mexeriqueira, de todas as côrtes, mas tinha a vantagem de ser, quanto á belleza das damas que rodeiavam a imperatriz, constituida em harmonia com a celebre phrase de Francisco I: uma côrte sem mulheres é um anno sem primavera, e uma primavera sem rosas.

A entourage feminina era numerosa, e gentil. Os lyrios da belleza floresciam nas Tulherias como n'um jardim que a primavera esmalta. Madame Carette esboça o perfil de todas as grandes damas que rodeiavam a imperatriz Eugenia. Faz passar diante dos nossos olhos a viscondessa de Aguado, marqueza de las Marismas, bella e espirituosa, mãi da duqueza de Montmoreney, uma mulher elegante que morreu aos trinta annos. A insinuante condessa de Montebello, que tinha sido a amiga intima da duqueza de Alba, e que fôra embaixatriz em Roma, onde brilhára como estrella no corpo diplomatico. Madame de Malaret, de uma rara elegancia de linha. A marqueza de Latour-Maubourg, filha do duque de Trévise, sempre muito ciumenta do marido. Um dia perguntaram-lhe o que ella faria se soubesse que o marido a enganava. Morreria de espanto, respondeu a marqueza. A baroneza de Pierres, que era a mulher da França que montava melhor a cavallo. A condessa de la Bédoyère, uma virtuose distinctissima, que tinha a belleza das mulheres do tempo de Luiz XIV. Viuva em 1869, casou com o principe de Moskowa, porque a sua belleza chegava á vontade para fascinar dois maridos. A condessa de la Bédoyère tinha uma irmã, a condessa de la Poëze, e ninguem como estas duas irmãs possuia em grau mais eminente o que póde chamar-se l'esprit des cours. A condessa de Rayneval, formosissima, não casou nunca: era chanoinesse n'uma ordem da Baviera. Foi ella que serviu de modelo para a Musa, que no celebre quadro d'Ingres corôa a cabeça de Cherubini. A baroneza de Viry-Cohendier, em cujo rosto brilhavam dois olhos, que pareciam carbunculos. A princeza Anna Murat, d'uma belleza loira, fresca, primaveril. A duqueza de Malakoff, o mais puro typo da belleza andaluza. A duqueza de Morny, uma flôr de neve da Russia, colhida pelo duque que alli fôra embaixador, e que representára olympicamente a França na coroação do czar Alexandre II. A duqueza de Persigny, loira como Daphne. A esta pleiade de mulheres encantadoras viera reunir-se, nos ultimos dez annos do imperio, a famosa princeza de Metternich. E occupando o centro d'este systema planetario de bellezas femininas, um sol: a imperatriz.

Havia nas Tulherias um salão azul que a imperatriz quizera dedicar exclusivamente á belleza, povoando-o com os retratos das mais formosas damas da sua côrte. Nas telas que revestiam as paredes, cada dama personificava uma das grandes nações da Europa. A princeza Anna Murat representava a Inglaterra, a duqueza de Malakoff a Hespanha, a duqueza de Morny a Russia, a condessa Walewska a Italia, e no meio de toda esta constellação desenhava-se o perfil da imperatriz sobre um medalhão sustentado por figuras allegoricas.

O incendio das Tulherias, depois da quéda do imperio, carbonisára essas notaveis télas, de que ficaram apenas, aqui, alli, fragmentos indemnes, vestigios d'esses retratos que resumiam toda a graça feminina da França imperial.

De resto a vida das Tulherias agitava-se nas mil intrigasinhas e rivalidades de que as mulheres, ainda que sejam encantadoras, não sabem emancipar-se. Eram frequentes as tempestades n'um copo d'agua. Por exemplo. Um anno, no dia da festa da imperatriz, a 15 de novembro, resolveu-se fazer quadros vivos, reproduzir o Déjeuner champêtre de Watteau. Foi a princeza de Metternich, que tinha uma rara habilidade para este genero de divertimentos, quem ficou encarregada da distribuição dos personagens e dos costumes.