O dia da partida chegára, a fragata austriaca Novara e a fragata franceza Thémis fundearam no porto de Trieste, todo um enxame de archiduques e archiduquezas concorrêra ao bota-fóra, o burgomestre, em nome dos habitantes da cidade, significára ao novo imperador a viva saudade que elle deixava, e Maximiliano, abraçando o burgomestre, sentira os olhos inundados de lagrimas, e o coração atormentado por um vago presentimento de desgraça.

—Parece-me que não voltarei mais! dissera o imperador.

Mas a salva festiva de cem tiros, no momento em que o imperador embarcava, viera suffocar as suas palavras. A Novara, desfraldando as côres do Mexico, esperava baloiçando-se. As archiduquezas atiravam, na ponta dos seus finos dedos patricios, beijos alados que iam, adejando, procurar a face da imperatriz. Os archiduques acenavam ao imperador com os seus lenços brancos, que fluctuavam como outras tantas azas de garça. A multidão seguia com um olhar attento, curiosamente interessado, todo esse extraordinario movimento de bateis que ondulavam em torno da Novara. E no chalet da collina de Miramar,—o dôce ninho de amor agora solitario—a madresilva chorava em lagrimas de perfume insinuante o abandono em que a deixavam os dois ingratos coroados. E o castello, na grandeza lutuosa das suas ameias, parecia comprehender as lagrimas da madresilva saudosa, e responder-lhe agoirentamente: «Como é louca a ambição! como é cega a cobiça!»

A Novara, seguida da Thémis, levantou ancora, e de pé, no tombadilho, tanto quanto os oculos de longa vista podiam abranger, Maximiliano, immovel como uma estatua, voltado para Miramar, devorava com os olhos o seu bello castello solitario.

Com a prôa na Italia, a Novara navegava desfraldando a bandeira do Mexico.

Maximiliano queria desembarcar em Italia para ir a Roma. Fazer o quê? Regular questões religiosas do Mexico, disse-se então. Pedir ao Padre Santo que abençoasse uma empresa aventurosa, porque não? As almas apprehensivas, como a sua, precisam, nos lances arriscados, procurar na fé um ponto de apoio, quando a esperança lhes sorri duvidosa.

Mas em Roma um aviso anonymo, affixado nas ruas da cidade santa, devia ter soado aos ouvidos de Maximiliano como uma prophecia terrivel, que vinha do seio mysterioso do incognoscivel.

Dizia o aviso que Roma inteira lêra com surpreza:

Maximiliano non ti fidare,

Torna sollecito a Miramare!