—Querem-me lá para começarem desde logo a discutir-me! Pois vão esperando por mim. Que o Magalhães Lima vá aguçando a penna, e o Consiglieri Pedroso vá ensaiando a voz. Eu bem sei que elles não são meus amigos e o meu coração é tão pequenino que não comporta odios contra ninguem. Como não saberei odial-os, não estou para os aturar por ora. Que vão esperando. Teem lá muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudérem, que eu não estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche ou de um piloto de Cascaes, não teria duvida em chegar depressa. Ninguem daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro somno. Mas como sou filho do herdeiro da corôa de Portugal, como eu sei que tenho de aturar os republicanos e as peças de artilheria, os foguetes e os jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto que, depois que eu fôr crescido, todos ralharão se me fizer esperar cinco minutos em qualquer parte...
O dr. Ravara continúa a vêr-se embaraçado com as perguntas que lhe fazem, o snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr.ª Prévot vê-se sériamente atrapalhada, mas a verdade é que o principesinho não chega porque não tem vontade nenhuma de chegar.
E o principesinho tem razão.
—Aqui, dirá sua pequenina alteza, todos os anjos me tratam por tu e brincam commigo. Está-se muito bem, e elles proprios me informam de que lá em baixo ha um monstro terrivel, que devora a paciencia, e que se chama a Pragmatica. Eu tenho medo d'esse monstro, em respeito ao qual todas as pessoas passarão a tratar-me por alteza, a mim, que sou mais pequenino do que ellas!
E emquanto sua alteza assim monologava, sem querer chegar, Lisboa, desesperada por esperar, ia olhando para o Tejo para vêr subir as aguas da grande maré tão annunciada.
Mas a maré passou, só não chegou ainda a maré de sua alteza chegar n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem!
Pobre dr. Ravara!
Pobre snr.ª Prévot!
E pobres pais de familia, porque ámanhã, talvez, já os seus bebés não acreditarão em desculpas!