—Pois sim, mulher, pois sim; vou vêr se durmo.
Ora, francamente, sendo assim, as odaliscas tiveram razão.
Não se é sultão para isto, porque a nobreza obriga, e um sultão, que se prese de o ser, tem deveres a cumprir.
Ouvissem-me as odaliscas agora, e não me faltariam apoiados.
O rei Milan da Servia é que não pensa precisamente como o sultão de Marrocos.
Agora mesmo, que parecia estar a ponto de se reconciliar com a rainha Natalia, uma nova aventura veio de subito carregar de nuvens o ceu conjugal, que promettia tornar-se azul e sereno.
Estão em Pesth duas cantoras de Café-Concerto, mesdemoiselles Morgot e Elisa Roger, duas irmãs.
Por occasião da sua recente passagem em Pesth, o rei Milan da Servia, ouvindo elogiar a belleza das duas «chanteuses», manifestou desejo de as vêr pessoalmente, e, acompanhado do conde Eugenio Zichy, foi visital-as. Um jornal de Pesth, sabendo da visita, alludiu ao caso, em breves palavras, no seu noticiario. O incidente não fizera ruido e estava já esquecido, quando, tres semanas depois, as duas irmãs appareceram subitamente na redacção do jornal e intimaram o redactor indiscreto a dar-lhes explicações. O redactor riu-se e gracejou. Resolveram então intentar um processo,—que sem duvida será picante: o rei Milan e o conde Zichy serão citados a comparecer para testemunhar que a visita que fizeram ás galantes e formosas cantoras foi «pura e simples visita de delicadeza».
A rainha Natalia, que é curiosa de mais para deixar de lêr gazetas, teve naturalmente conhecimento do facto, e, agastando-se de novo, oppoz-se á reconciliação, que parecia estar em bom terreno.
Quando a gente ás vezes começa a pensar sobre as coisas do mundo, pasma de que a Providencia ou o acaso, que tão sabiamente regula a maior parte dos negocios terrenos, tenha de quando em quando desacertos verdadeiramente inexplicaveis.