El-Rei D. Luiz nos Jeronymos
(Outubro de 1889)
Edgar Quinet sentiu pulsar na igreja de Belem a alma navegadora do Portugal manuelino. São profundamente verdadeiras as suas observaçoes. De feito, todos os caracteres da vida do mar alli estão, em Belem. Cabos de pedra que ligam os pilares uns aos outros; altos mastros de mesena que sustentam as ogivas, os florões, as abobadas: a igreja é o navio que vai largar para os ousados descobrimentos. No claustro ha já espalhadas com mão profusa as primicias dos continentes recentemente descobertos: pendurados nos baixos relevos, os côcos e os ananazes; os macacos do Ganges trepando baloiçados pelos cabos; os papagaios do Brazil esvoaçando festivamente em de redor da cruz; elephantes de marmore que conduzem em triumpho a urna funeraria do rei Manuel. Uma igreja maritima, finalmente, com tão raro primor descripta por Quinet, erguida no proprio local d'onde Vasco da Gama partira para ir descobrir a India.
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No dia 8 de julho de 1497 ninguem trabalhára em Lisboa, apesar de ser um sabbado. Toda a gente corrêra a vêr partir as naus do ancoradouro do Rastello. Eram quatro os navios que compunham a esquadra: S. Gabriel, nau-almirante, S. Raphael, Berrio, e uma barca com mantimentos.
Vasco da Gama tinha ido de vespera, com os seus companheiros, fazer vigilia na ermida de Nossa Senhora de Belem, fundada pelo infante D. Henrique. Ahi commungou pela mão de alguns freires do convento de Thomar. O vento norte, que no estio costuma soprar em toda a costa da peninsula, era favoravel á navegação.
No sabbado, logo pela manhã, encheu-se de povo o caes do Rastello. A multidão, ávida de sensações, esperava anciosamente que os navegantes sahissem da ermida. Finalmente Vasco da Gama e os seus companheiros assomaram á porta, com cyrios na mão. Seguiam-se-lhe os freires e os sacerdotes que da cidade tinham ido expressamente para dizer missa. O povo, em massa, fechava o prestito, respondendo á ladainha que os padres cantavam.
Havia n'este espectaculo o que quer que fosse de vaga tristeza, aliás justificada. Uma numerosa tripolação ia affrontar os perigos do oceano, lançar-se nas incertezas de uma navegação aventurosa.
Chegados junto aos bateis Vasco da Gama e os seus companheiros, o vigario da ermida, com voz solemne, proferiu uma allocução piedosa, acabando por lançar a absolvição.
«No qual acto, escreve João de Barros, foi tanta a lagrima de todos, que n'este dia tomou aquella praia posse das muitas que n'ella se derramam na partida das armadas que cada anno vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir: de onde com razão lhe podêmos chamar praia de lagrimas para os que vão, e terra de prazer aos que vêm. E quando veio ao desfraldar das velas que os mareantes segundo seu uso deram aquelle alegre principio de caminho, dizendo boa viagem: todos que estavam promptos na vista d'elles, com uma piedosa humanidade dobraram estas lagrimas: e começaram de os encommendar a Deus, e lançar juizos sobre o que cada um sentia d'aquella partida!»