Mas Deus protegêra a audacia dos portuguezes, os mares abriram passagem á frota de Vasco da Gama, e a India, descerrando de par em par as portas crystallinas dos seus golphos, desde Cambaya a Bengala, inclinava, rainha do Oriente, a fulva cabeça, radiante de auroras, ao dominio colonial do nauta do Occidente.
As lagrimas choradas na praia do Rastello, quando a frota levantava ferro, vieram-nos devolvidas em perolas arrancadas ao oceano Indico no golpho de Manaar e nas costas de Ceylão.
A melancolia que avassallava os espiritos, na hora em que Vasco da Gama partiu, transmudára-se, só com passar pelo chrysol da India, no oiro luminoso de Quiloa, que mestre Gil Vicente ou outro qualquer notavel artifice do seculo XVI arredondára n'um disco—a famosa custodia dos Jeronymos—, tão bello como o sol, tão resplendente como elle.
E depois de terem dobrado duas vezes o Cabo das Tormentas, depois de terem vencido Adamastor duas vezes, as galés d'el-rei subiam em triumpho a corrente do Tejo, á volta do Oriente, e toda a alma portugueza vibrava de alegria e de orgulho na impaciencia dos animos e na avidez dos olhos.
Lá vêm galés Tejo acima!
lá vêm as galés d'el-rei!
***
Por vocação ou educação, por qualquer d'estes dois factos que constituem toda a orientação do espirito, el-rei D. Luiz fizera-se marinheiro, passára no oceano os annos desenfadados da vida, impregnára a sua alma d'essa antiga tradição maritima, que fôra o maior florão de gloria da dynastia d'Aviz.
Infante de Portugal, como D. Henrique, tinha o culto da navegação, a religião do mar. No convez do Pedro Nunes ou da Bartholomeu Dias, recordaria por noites de luar, ao som das aguas, toda a nossa epopêa maritima, de que esses dois nomes, o do inventor do nonio e o do descobridor do Cabo, eram como duas estrophes gravadas nos marmores eternos da Historia. Rei, constrangido a viver em terra como um marinheiro aposentado, dessedentava saudades contemplando o Tejo do seu miradouro da Ajuda ou o Atlantico do alto da bateria de Cascaes.
E fôra Cascaes, uma pequena villa de marinheiros, Cascaes, a patria do aventuroso piloto Affonso Sanches, que recebêra o extremo alento d'esse bom rei que tanto vivêra profissional e espiritualmente da nossa gloria maritima. Fôra o mar que soluçára em torno do seu athaude o primeiro cantico funebre, fôra o mar que, marulhando nos muros da cidadella, viera receber o seu espirito para o restituir a Deus.