A rainha disfarçou:
—Outro dia fallaremos n'isso. Mas não é coisa que toque pelo rei.
Passado tempo, Catharina tentou sondar outra criada:
—Joanna, desejo fazer-te bem e conseguir que el-rei te case honestamente.
E, juntando os factos ás palavras, deu-lhe alguns vestidos e joias.
Corridos dias, a rainha abriu-se confidencialmente com a criada.
Disse-lhe que amava Colepeper, que pensára mesmo em casar com elle antes do rei a requestar. E pediu-lhe que a auxiliasse para ter uma entrevista com Colepeper, visto que o rei ia sahir para Rionsirche.
A criada teve medo, recusou-se e foi denunciar a rainha ao arcebispo do Cantorbery. Mas parece que outra criada, menos timida, favorecêra os intentos de Catharina, porque depois se averiguou, como vamos vêr, que a rainha tivera effectivamente um tête-à-tête com Colepeper.
O arcebispo soube mais por um individuo chamado Lascelles, cuja irmã havia estado ao serviço da velha duqueza de Norfolk, e lhe revelára segredos da vida de Catharina quando solteira, que dois officiaes da casa da duqueza, Derban e Mannoc, haviam sido admittidos no seu leito, sem que d'isso fizessem mysterio.
Julgou o arcebispo, depois de ter conferenciado com o conde de Hertford, e com o chanceller, que devia contar tudo ao rei, e fel-o com certo embaraço, como era natural. Henrique VIII mostrou-se incredulo, no primeiro momento, mas o arcebispo, desejando justificar-se, activou decerto novas investigações. Lascelles foi a Sussex fallar com sua irmã, a qual não só confirmou mas até ampliou as revelações anteriores. Mannoc e Derban, presos e interrogados pelo chanceller, disseram tudo o que podiam dizer. Revelaram pormenores escandalosos. Contaram que tres jovens criadas da duqueza de Norfolk conheciam o segredo da devassidão de Catharina, porque tinham algumas vezes passado a noite entre Catharina e os seus amantes.