Não tinhamos a menor noticia d'este livro, que versava um dos mais interessantes assumptos da historia de Portugal, não obstante haver sido publicado em 1863.
E como temos por indispensavel estudar a historia portugueza, para apural-a com segurança, pelo confronto do que escreveram os nossos historiadores com os dos paizes que comnosco tiveram relações politicas em determinadas épocas, fossem essas relações devidas a um casamento, a um tratado, a uma guerra ou a qualquer outra causa—systema este em que principalmente baseamos o nosso estudo historico ácerca da Excellente Senhora, Rainha sem reino,—procuramos a todo o custo obter esse livro, para nós desconhecido, cujo titulo nos aguçára a curiosidade e o interesse de possuil-o.
Mal diriamos n'essa occasião que, tambem pela venda de um espolio, adquiririamos pouco depois outro livro do mesmo author ácerca de uma época não menos notavel da historia portugueza.
O barão Gaudenzio Claretta dá n'aquelle seu livro noticia de duas medalhas que o duque de Saboya Carlos III mandára cunhar para perpetuar a memoria de sua esposa.
Uma d'ellas tem de um lado a effigie de D. Beatriz com a legenda: Beatrix dux Sabavdie e do outro os escudos de Saboya e Portugal com esta inscripção; Lvsitaniæ regis filia an svæ æt. 36.
A segunda medalha, que se encontra reproduzida no ante-rosto do livro, representa a duqueza de Saboya, ricamente vestida, com a legenda: Beatrix decvs Portvgallie ducissa Sabavdie.
Um argumento salta desde já aos bicos da penna.
Se Carlos III tivesse menospresado sua mulher pela revelação do segredo dos seus amores com um cavalleiro portuguez, como Herculano deprehende do codice por elle publicado no Panorama, não haveria decerto manifestado pela morte da duqueza um tão profundo sentimento como aquelle que se traduz pelo facto de haver mandado cunhar não apenas uma só medalha commemorativa—mas duas.
A effigie de D. Beatriz, gravada na segunda medalha, é claro que nada póde aproveitar para tirarmos a limpo a côr dos seus olhos. Mas a este respeito basta o testemunho fidedigno, a que já nos referimos, do snr. Miguel Martins Dantas. Em todo caso, a medalha é muito interessante, pois que reproduz, e devemos suppôr que com fidelidade official, as feições da infanta portugueza e a sua toilette.
A medalha representa-a com um toucado de pedras preciosas, que lhe circumdam os cabellos apartados ao meio e cahidos em madeixas sobre os hombros. Vestido de decote escanteado. Um pequeno cabeção de recortes com tres voltas de pedraria. Collar pendente. A meio do peito uma cruz suspensa da orla do decote.