É porém durante a jornada que o author do codice se refere a violencias praticadas contra os portuguezes que acompanharam a infanta.
Claretta cita os nomes dos personagens italianos que fizeram séquito aos noivos até Vigone, um dos quaes personagens era o governador de Niza, com o seu logar-tenente. Parece natural que aquelle funccionario e alguns mais retrocedessem depois de haverem acompanhado os duques por algum tempo. Accrescenta Claretta que em Vigone se despediu o cortejo, ficando ahi os noivos, podendo suppôr-se que no gôso da sua lua de mel, livres finalmente das impertinencias officiaes, que durante oito dias os tinham rodeado.
A 10 de fevereiro de 1522 expedia Carlos III patente de assentamento, a favor de D. Beatriz, da quantia de nove mil e setecentos florins, com hypotheca sobre diversos rendimentos publicos, e a 22 de abril passava quitação ao rei de Portugal da somma de cento e cincoenta mil ducados, com que a infanta fôra dotada por seu pai.
Os duques demoraram-se em Vigone até ao mez de março, recebendo ahi D. Beatriz, por parte do estado do Piemonte, um donativo de cincoenta mil florins, e o duque outro de duzentos mil.
Claretta diz que a entrada dos noivos em Turim fôra saudada pela população, mas que as festas publicas bem depressa tiveram de ser ensombradas pela noticia da morte do rei de Portugal, occorrida no mez de dezembro, e pela peste que os portuguezes haviam deixado em Niza, cujos habitantes flagellára por longo tempo.
A scena da ponte, descripta no codice do Panorama, quando uns cem alabardeiros pozeram as alabardas aos peitos dos portuguezes, que queriam acompanhar a infanta, teria uma explicação inverosimil pela versão de Herculano, visto como o duque não havia ainda regulado a situação financeira de um casamento que tanto lhe convinha e por que tanto instára.
Sendo tamanha, como refere Claretta, a multidão de portuguezes que assistiram á recepção da infanta D. Beatriz, explica-se facilmente o acto de violencia praticado pelos alabardeiros como medida prophylatica adoptada pelo duque contra a invasão de uma epidemia que desde longos annos não tinha deixado de fazer grande numero de victimas em Portugal. Póde mesmo ter acontecido que um ou outro caso de peste se houvesse manifestado entre os cinco mil portuguezes que por occasião das festas do casamento se encontravam em Niza, incluindo os marinheiros dos dezoito navios que constituiam a frota portugueza. É porém natural que os portuguezes se offendessem com essa precaução, e desfigurassem as intenções de Carlos III tomando-as á conta de descortezes para com a infanta, e de hostis para com elles.
As condições hygienicas de Portugal eram realmente deploraveis então. A peste tinha devastado o reino annos antes, e, referindo-se á morte de D. Manuel, diz Garcia de Rezende na Miscellania:
N'este anno se finou
o gran rei D. Manoel,