Uma dama de tão rija tempera, como D. Beatriz se mostrou em Saboya, não só nos negocios politicos, mas tambem nos domesticos, não menos apertados e difficeis, se se houvesse apaixonado por Bernardim Ribeiro, se tivesse acceitado os galanteios do famoso trovador portuguez, haveria tido a coragem de resistir a todas as vicissitudes que combatessem os designios do coração amoroso.

Ao contrario de sua mulher, Carlos III, sempre vacillante, continuava hesitando entre a França e a Hespanha, entre Francisco I e Carlos V.

D. Beatriz tinha, a este respeito, opiniões definidas, e expunha-as com clareza ao marido. Ella era pela Hespanha. E n'este sentido aconselhava ao duque: «... mais que si vous aviez deliberé vous entretenir envers France comme aviez faict jusqu'ici que ce vous serait chose bien difficile pour vivre avec tous deux neanmoins j espere selon votre accoutumée prudence vous y scaurez bien conduire.»

Todavia as circumstancias eram de geito para entibiar qualquer animo menos forte que o de D. Beatriz de Portugal.

Longe do marido, soffrendo pela saude e pela situação politica d'elle continuados sobresaltos; luctando com a falta de recursos pecuniarios cada vez mais aggravada; tendo perdido seu filho Luiz, que expirára em Hespanha, na companhia de Carlos V, em dezembro de 1536; compromettida, no anno seguinte, a sua delicada saude pelo extremo estado de gravidez em que se encontrava; D. Beatriz de Portugal luctára, emquanto pudera, com animo varonil e esforçado, mas, presentindo a morte, que se avisinhava, preparou-se serenamente para a viagem eterna, ditando as suas disposições testamentarias.

Era, nas circumstancias em que se encontrava, uma princeza pobre.

Mas, pela leitura do testamento, reconhece-se toda a humildade dos seus sentimentos religiosos, na recommendação que faz ácerca da modestia dos funeraes, e nos pequenos legados, nas ultimas recordações com que testemunha o seu affecto pelas pessoas que a rodeavam, as suas criadas particulares, taes como a ama do fallecido principe Luiz e a mulher do barbeiro do duque.

Herdeiro universal o marido. Aos filhos legava a terça. E recommendava que se do proximo parto nascesse uma filha, não a casassem sem consentimento de Carlos V; e sempre com um principe igualmente illustre em nascimento. De contrario, preferiria que fosse freira.

Legitimo orgulho de uma princeza portugueza que, alongando os olhos para além do tumulo, procurava evitar que uma filha sua desposasse um d'esses pequenos principes que enxameavam na Italia. Mãi dedicada, queria que a sua prole estremecida tivesse um destino mais tranquillo do que ella tivera.

O testamenteiro nomeado por D. Beatriz foi Francisco de Carvalho, embaixador portuguez junto á côrte de Saboya.