O bispo do Porto D. Fernando Corrêa de Lacerda diz na Catastrophe que o rei e o infante acompanharam o cadaver da mãi até ao coche funebre:

«Na segunda feira se dispozeram os funeraes com religiosa, e decente pompa, e á terça á noite depois d'el-rei e S. A. lançarem agua benta ao cadaver, e o acompanharem á liteira, foi levado á igreja do mosteiro do Sacramento de religiosos Carmelitas Descalços, que havia edificado, d'onde se sepultou por deposito, até se acabar a igreja das religiosas Descalças da recolecção de Santo Agostinho, de que era fundadora, na qual tinha mandado escolher a ultima sepultura.»

Ora o desconhecido author da Anti-catastrophe (livro de que Camillo Castello Branco diz com razão: tem relanços que inspiram crença; mas lá vem outros que a desluzem) não menciona o nome do principe, como assistente á agonia da mãi, e a respeito do rei descreve-o gastando tres dias de Salvaterra a Lisboa, sem pressa nenhuma de chegar, porque mandava fazer paragens para ouvir os musicos; e conclue por dizer: «Foi para palacio, porque, nem ainda morta a quiz vêr.»

O auctor das Monstruosidades do tempo e da fortuna, qualquer que seja, diz que nenhum dos filhos lhe assistiu, supposto chegassem uma hora antes da rainha expirar, por estorvados de quem sabia que os conselhos d'aquella hora, como mais desenganados, são fielmente cridos e ficam na memoria mais estampados.

A verdade deve estar no meio termo: os dois filhos importaram-se pouco com a morte da rainha, quer lhe deitassem agua benta quer não.

Nós é que lh'a não podemos deitar a elles para absolvel-os de tão grave falta.

Pois esta illustre princeza que tanto luctára toda a sua vida, com o marido, com o cunhado D. Duarte[[4]], com Castella, com o irmão e com os filhos, alli estava reduzida aos seus ultimos despojos, tocados pela mão de vandalos que remexeram na cal para encontrar decerto alguma joia com que a rainha tivesse sido amortalhada. O marido, bem menos sympathico do que ella, está no pantheon real de S. Vicente, mas a benemerita Medina-Sidonia, que, ainda descontado o natural interesse egoista de antes querer ser rainha uma hora do que duqueza toda a vida, foi uma collaboradora importante na restauração da monarchia nacional, tem jazido no esquecimento e no abandono, tão sem repouso, que o seu cadaver vai agora fazer a terceira jornada, porventura definitiva[[5]].

II

A faca do marquez de Cascaes

O marquez de Cascaes é que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.