João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.
Frei Domingos continuou:
—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice, não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou: «A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça. Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz. Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça. Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não accrescentarei mais.[13]»
—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a phrase.
—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara. O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr. João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice. O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas, quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro, o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em quanto o teu braço fraqueja».
Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau approximou-se e disse com olhos humidos de pranto:
—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e...
—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago, devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o cadaver de seu genro...
—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...
—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau, enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio, porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao orphão»[14] diz o Psalterio. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...»