LISBOA
«A EDITORA»
Conde Barão, 50
1903

Typ. d’«A EDITORA», Conde Barão, 50


Prologo da 1.ª edição

Subi em julho d’este anno á montanha umbrosa do Bom Jesus do Monte e repousei o meu espirito, d’umas fadigas em que andava trabalhado, á sombra d’aquellas arvores seculares que ou não envelhecem nunca ou remoçam cada noite para verdejar novas galas ao romper da madrugada...

Quando o romeiro crava o seu bordão n’algum relvoso céspede do ermo sagrado, e sente subitamente embriagados os ouvidos n’aquella primavera inextinguivel chilreada de maviosos trinados, experimenta a influencia benefica d’um elixir mysterioso que se lhe está filtrando no coração, e vae acalmando como por encantamento as tempestades que lá se revolviam momentos antes. Este dulcissimo consôlo experimentei-o eu e experimentam n’o todos os que, na solidão amena, vão desfadigar-se de canseiras intimas.

Na solidão amena disse eu, e quero demorar-me um momento n’este ponto. A solidão profundamente triste e silenciosa quer-me parecer um como remedio heroico para organisações robustas, e só para ellas.