XIV

João Nicolau de Brito assentou de si para si que não tinha ainda sido traspassado pelas frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia com a mulher lamentava que o cerebro d’um rapaz de dezeseis annos se deixasse eivar de semelhante monomania poetica, como elle dizia.

D. Maria d’Assumpção escutava o marido com a maxima paciencia e, podemos dizel-o tambem, com a maxima reserva.

—Lá que elle é um estudante distincto, isso é! exclamava João Nicolau, frequentes vezes, depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. Os professores elogiam-n’o e dizem que o rapaz pode ser considerado, sem favor, o melhor do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, não me parece que gaste muito tempo a estudar...

—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é porque estuda. Não t’o elogiaram os mestres? Que mais queres? É preciso ter paciencia de santo para viver comtigo!

—Não sabes por que razão digo isto? É por que o vejo ir todas as tardes para Guadelupe. Provavelmente vae para lá falar só e fazer versos. Ora um estudante não pode sahir todos os dias ou chova ou faça sol...

—Oh! homem, quem te diz que elle não vae para lá estudar?

—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? Só se fôr nas palmas das mãos... Que lá do namôro com a Machado acho que não temos a recear...