Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua responsabilidade a educação do neto.
Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este caso que vimos historiando.
Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por João Baptista, costumava dizer:
—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros.
Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel:
—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte.
Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira.