—Estou capaz de dizer... pronunciou a medo D. Maria d’Assumpção.

—Pois dize, dize, e com isso responderás aos infundados receios do nosso vizinho, atalhou do lado João Nicolau.

—Visto que me auctorisas, sempre ousarei fazer uma confissão. Pode acreditar o sr. Frei Domingos que tivemos ambos a lembrança de lhe pedir que viesse honrar a nossa modesta consoada. Receamos incommodal-o, e não nos atrevemos...

—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; confesso-me penhorado como se tivera recebido e acceitado o convite.

Mas por que não ha de vir mais a miude, replicou João Nicolau, por que não ha de, visto que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? Nem o nosso Eduardo viu ainda o sr. Frei Domingos!

—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de v. s.ᵃ. Olhe que realmente parlandas de frade não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos por gente nova.

E, galhofando sempre, entregou a D. Maria d’Assumpção os novecentos e sessenta réis, que para elle e para a velha Gertrudes eram pecunia sufficiente para o passadio de alguns dias.

João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro aprazasse nova visita. Frei Domingos prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou a sua palavra. Á terceira visita encontrou se com Eduardo e lera-lhe nos olhos, sempre banhados em melancholia, as muitas amarguras que faziam noite escura n’aquelle coração de dezesete annos.

O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se de si mesmo enlevado na suavidade que recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se por um momento da cerração que lhe opprimia o peito, foi para Eduardo Valladares consolo que deixou após si gratissimas impressões. Livrára-o a Providencia de lembrar se de que aquelle homem, cuja serenidade d’alma se reflectia no olhar, tinha vestido o habito de frade e poderia ter amortalhado n’elle um coração ferido pelas desgraças da terra. Não lhe lembrou isto, e por tanto não rompeu clamoroso contra a voz da oppressão que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração opulento de seiva e esperança. No que pensou foi na serena alegria d’aquella alma, que em vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, já proximo, refloria em amenidades bafejando lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe Deus—o Deus a quem invocavam as doces orações da sua infancia, o Deus que adorava no templo e em toda a parte onde podia vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando mais se condensavam as trevas no horizonte da sua mocidade.