Assim pois o luctar da vida e da morte era o que por toda a parte se via. Contrastes de esperança e de desalento, antitheses de sorrisos e de lagrimas formavam a feição mais caracteristica do quadro.»
Esta devia de ser a realidade do seu poetico ideal, ideal dizemos, se bem que as almas privilegiadas pelo talento possuam a excepcional intuição de lerem atravez do futuro os caracteres do seu mesmo destino...
Em maio d'esse anno, regressou Gomes Coelho da ilha da Madeira, posto que bastante enfermo, relativamente muito melhor. Conservou-se no Porto, tomando parte nos trabalhos escholares, e nos principios d'outubro partiu para Lisboa, sahindo para a ilha no dia 15 do mesmo mez. Regressou em maio do anno seguinte (1870) e nos primeiros dias d'outubro tornou a embarcar para a Madeira, voltando á patria em maio de 1871.
Cumpre notar que em 1870 sahiram em volume, editados pela casa Moré, e sob o titulo de Serões da provincia, os quatro romancezinhos—Apprehensões de uma mãe,—O espolio do senhor Cypriano,—Os novellos da tia Philomella, e—Uma flor d'entre o gelo.
Durante as tres epochas que demorou na ilha foi que{31} Julio Diniz escreveu o seu ultimo romance—Os fidalgos da casa mourisca,—posto que das duas ultimas alternasse os trabalhos de redacção com estudos de economia politica. Em maio, como já dissemos, regressou ao Porto, gravemente doente, atacado, além dos seus padecimentos chronicos e fataes, d'uma dor sciatica.
Então devia já ter-se feito noite n'aquelle grande espirito, e a ideia da morte havia de interpor-se, cada vez mais intensa e melancolica, entre o presente e o futuro.
Declinava o sol; o occaso estava proximo.
Que dolorosos pungimentos de saudade lhe não havia de dar a cada momento a memoria,—aquella vivaz e fiel memoria dos phtysicos,—ao recordar-se dos tranquillos dias da sua mocidade, das suas excursões a Aveiro, a Felgueiras, a Leiria, sempre rodeado d'amigos, sempre querido d'elles, agora que, por uma barreira invencivel, se via, e para sempre, distanciado d'um amigo que sinceramente o estimava,—o publico!
VII
Em Gomes Coelho tão identificados andavam o homem e o litterato, que não havia surprehendel-os na menor contradicção. O mesmo é lêr os seus versos, os seus romances sobretudo, e descortinar para logo a limpidez, a tranquillidade, a nobreza d'aquella alma. Os quadros que devemos á sua penna são placidos, azues e luminosos, e estes serenos esplendores que lhes davam animação partiam directamente, sem jámais atravessarem um meio viciado, do foco intimo e puro,—do seu grande e nobilissimo espirito.