Pobre scismador, que sentia dentro do craneo a chamma dos predestinados para a gloria e no peito a urna embalsamada d'um coração sem macula, com que inexplicavel melancolia, e porque longas horas de dilacerante angustia, não veria elle destacarem-se, nos campos visinhos, sobre o céo pardacento do outomno, os troncos das arvores cada vez mais despidos e solitarios! Era aquelle um sentir-se resvalar para o tumulo, dia a dia, um despedir-se lentamente das suas affeições, dos seus romances que resumiam horas de enlevo e melancolia, e do seu ultimo livro, especialmente do seu ultimo livro, folha, que, ao voar do recinto da familia para a officina typographica, fôra talvez rociada pelas lagrimas furtivas d'um presentimento pungente.
Era que tinha de ser a ultima d'uma primavera que, em pleno esplendor de suas galas, via enovelar-se ao longe, avançando sempre, a nuvem negra do simoun que levaria após si folhas e flores para abysmar umas e outras nos despenhadeiros do sepulchro.
E a nuvem aproximou-se, e o simoun passou, e tudo o que estava ainda enthesourado nos cofres opulentos da primavera perdeu-se, mas a folha verde dos intimos vergeis tinha já voado, nas brisas suavissimas da gloria, a enastrar-se n'uma corôa entretecida por outras, suas irmãs, porque da mesma seiva se nutriram, e que pairava a uma altura superior ás impetuosas correntes que impellem o homem desde a vida inconsciente do berço até aos abysmos insondaveis da eternidade.
De Gomes Coelho só morrera o homem; o escriptor ficara.
FIM
[[1]] A Caldeira de Pero Botelho, romance, pag. 200.
[[2]] N'esta ruim profissão das lettras, tão escassa de rendosos benesses, é licito orgulhar-se a gente de certos galardões espontaneos que lhe dão á alma um momento de conforto. Por tal razão se transcrevem as palavras que nos enviava o snr. D. Antonio da Costa com relação ao artigo transcripto:
«Mando-lhe um abraço pelo sentido artigo biographico que escreveu a respeito do pobre Juio Diniz. Li-o, e muito gostei d'elle.»