Camillo Castello Branco é realmente um escriptor incansavel, que tem enfermado na faina das lettras, e que n'ella espera morrer, como aquelles guerreiros legendarios, de que falla a historia nacional, que só largavam da mão a espada, quando a morte lhes desnervava o braço.
Julio Cesar Machado sustenta, ha longos annos, as boas tradições do folhetim portuguez com uma graça e uma delicadeza que fazem ainda suppôr que elle não completou siquer vinte e cinco annos.
O snr. D. Antonio da Costa tem sido, é, e será sempre o apostolo convicto da suada obra do bem, o propagador nunca esmorecido d'essa grande verdade chamada instrucção nacional, que aos espiritos mais levianos de Portugal se afigura ainda, e Deus sabe por que tempo se afigurará, infelizmente, uma formosa utopia de ministro poeta.
Pinheiro Chagas é d'estes combatentes válidos e corajosos, que nunca desanimam nem fraquejam nas campanhas litterarias, posto que seja muito para receiar que a politica, que já lhe franqueou as portas de S. Bento, venha um dia a adormecel-o na indolencia dos seus braços perfidamente voluptuosos.
Poderá causar reparo que não citemos o nome do snr. Mendes Leal; mas s. exc.ª, envolvido em negocios diplomaticos presentemente, só de longe a longe apparece na imprensa ou desobrigando-se de encargos academicos ou modulando um carme fugitivo que mais saudades nos deixa da sua lyra poderosa.
O snr. Manoel Roussado, hoje barão d'este nome, e que era aliás um folhetinista de muito espirito, sahiu de Portugal para exercer no extrangeiro um consulado, quando o visconde Ponson du Terraiil lhe começou a{8} disputar tenazmente o rez de chaussée do Diario Popular. São portanto tres ou quatro os lidadores que estão em campo, e que ahi recolhem os louros do triumpho, sempre que sahem a provar a fina tempera de suas armas. Outros ha, como João de Deus, Anthero de Quental, Pereira da Cunha, visconde de Benalcanfor (Ricardo Guimarães), Teixeira de Vasconcellos, que, talvez enojados d'esta alluvião de versões a tostão o volume e de questiunculas de fanatismo religioso e politica bichosa, raro dão mostras de vitalidade litteraria.
Intencionalmente deixamos para o ultimo logar o snr. Theophilo Braga, por se nos afigurar que, escrevendo a Historia da Litteratura Portugueza, está traçando o epitaphio das lettras patrias cuja nova historia só uma outra renascença, proxima ou remota, poderá reatar. Procurando as causas etyologicas d'esta crise litteraria, não seremos dos que só attribuem o mal aos romances abstrusos de Ponson du Terraill, á influencia nociva da sua eschola realista, e ás operetas d'Offenbach, mas sim dos que lançam a culpa a esta epocha revolucionaria e anormal que está collocando a Europa toda sobre a cratéra d'um vulcão que tem já vomitado as primeiras lavas.
Não queremos ser prophetas da historia e aventar em que periodo e sobre que zona geographica rebentará primeiro a medonha erupção. Ha de vir, infelizmente acreditamos que ha de vir, mas não sabemos quando. O que é porém certo é que esta ebullição politica europea tem affectado sobremodo as litteraturas. A França, que d'ha muito ia sempre na vanguarda das sciencias e das artes, vae fluctuando como póde sobre o sangue derramado pela guerra com o extrangeiro e pela communa, e Deus sabe quando os seus negocios terão um caracter definitivo e seguro. O theatro francez está tão abatido como o theatro portuguez, onde se dão hoje as comedias hispanholas entrajadas á portugueza, por não haver realmente d'onde se importar melhor litteratura dramatica. A novissima geração, que poderia ser garantia de rehabilitação, resente-se d'esta incerteza geral e espaneja-se de genero em genero mais por se desfadigar de tristeza e tedio do que para amontoar peculio para o futuro,{9} que será de certo a revolução, e que portanto lhe havia de queimar as obras antes de lh'as lêr.
N'estas circumstancias especiaes e gravissimas é sobremodo para lamentar o que em qualquer tempo é sempre para sentir,—a perda d'um athleta que denodadamente luctava contra a indifferença geral, fazendo-lhe rosto e obrigando-a, apezar de sua pertinacia, a dobrar-lhe o joelho em sincera adoração. Joaquim Guilherme Gomes Coelho era um d'estes raros e poderosos luminares das lettras patrias, que, por não serem já muitos, se tornam indispensaveis. São estes homens os que devem ter uma biographia, porque a dos que nasceram para não deixar vestigios da sua passagem na terra resume-se apenas nas poucas palavras inscriptas na lousa que lhes demarca os sete palmos de terra.