III

De 1854 a 1855 frequentou Gomes Coelho as aulas de segundo anno de mathematica e physica na Academia Polytechnica. Devemos notar que em todas as disciplinas que cursara obtivera classificações honrosas e accessits, não recebendo premio um anno por ter sido tirado á sorte, o que não exclue a distincção.

Fique d'uma vez para sempre esta advertencia.

No anno lectivo seguinte, em que frequentava botanica e zoologia, succumbiram a dolorosos soffrimentos pulmonares, molestia hereditaria, porque a mãe de Gomes Coelho era tuberculosa, os seus dois irmãos José e Guilherme. Alanceado com este duplo golpe o seu affectivo coração, parece que só encontrara balsamo para tão profundas feridas n'umas tristezas poeticas curtidas na solidão luctuosa do lar, tristezas que são tambem suaves, porque nascem da saudade, ao mesmo tempo espinho que fere e flôr que embriaga.

Em 1856 entrou Joaquim Guilherme Gomes Coelho na Eschola Medico-Cirurgica, desempenhando-se das suas obrigações academicas, durante todo o curso, com notavel distincção.

Tenho sobre a minha banca a dissertação inaugural que defendeu em 1861, perante o corpo cathedratico da mesma Eschola. Intitula-se: da Importancia dos estudos meteorologicos para a medicina e especialmente de suas applicações ao ramo operatorio. Como trabalho litterario, que só assim, ainda que mal, o podemos avaliar, afigura-se-nos digno de confrontar-se com os escriptos posteriores de Gomes Coelho. Sobre o merecimento scientifico pronunciou o tribunal academico o seu veredictum sobremodo honroso para o alumno que exemplarmente encerrava o curso escholar.{13}

Não foi isenta de soffrimentos physicos a sua vida d'estudante; de enfermidades moraes já vimos que tambem não foi.

No segundo anno do curso medico teve uma hemoptyse ligeira, bolçando sangue em pequena quantidade. Apezar d'este triste prenuncio, e da morte recente de seus dous irmãos, não esmoreceu na assiduidade com que desvelava as noites abancado diante dos compendios sobre os quaes mais d'uma vez se espanejaria, borboleta inquieta, o genio invisivel da poesia.

Em 1860 appareceram versos seus, com o pseudonymo de Julio Diniz, na Grinalda.

D'elles nos occuparemos mais adiante.