—Porque eu vi um.
—Viu um!
—Vi-o com estes que a terra hade comer.
—E onde é que o viu?
—No fundo do meu poço!
Assim é em tudo o mais.
Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o fundo de um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e basta que o seja tanto como a do padre-mestre[{189}] Fanhões, chega sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se reputava visivel: realidade ou illusão.
Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que a maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos propensa á duvida e ao desalento.
O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles existiam,—por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por se ter convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o padre-mestre desde aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por caminhos diversos. Mas, com quanto um se atrazasse na jornada, ambos chegaram, e o essencial na vida é chegar... alguma vez![{190}]