O casamento entre os servios é livre, o resultado do mutuus consensus. O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a mão da filha. Obtida que seja, dá lhe o annel, penhor do casamento, porque um antigo pesma diz: «Como testemunho de amor, dá-se um pomo; como perfume, um mangerico;—mas o annel só se dá para casar.»
Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo á cara, dizendo: «Não te quero a ti nem ao teu pomo.»
Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas casamentos ricos. Os pesmas protestam contra esta excepção. A pobre rapariga caminha descalça sobre o gelo, tiritando, e o irmão pergunta-lhe: «Tens frio nos pés, querida irmã?» E ella responde: «Não! não tenho frio nos pés, meu irmão, mas sinto um frio glacial no coração. Não é a neve que me molesta, é minha mãe que me quer dar por esposo aquelle que eu aborreço.» Uma outra[{232}] canção diz: «Vivia na montanha uma donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de seu rosto. Ó meu rosto, dizia ella, ó meu unico cuidado, se eu soubesse, meu branco rosto, que um velho marido te devia beijar, oh! iria á montanha verde e colheria o absyntho, espremeria o seu suco e lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de que o velho, quando te beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse, meu branco rosto, que um joven marido havia de te beijar, oh! então iria ao verde jardim, colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te lavar, meu branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse, ficasse perfumado do teu perfume.»
O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que os irmãos e amigos da noiva a acompanhem á sua nova casa, a cavallo, ao som de musica, entoando canticos e dando tiros. As irmãs e as cunhadas vem então ao encontro da noiva, que se adeanta para ellas: apresentam-lhe uma creança que ella deve vestir, bem como deve offerecer aos convidados pão, vinho e agua. Só quando dá á luz é que a noiva passa a ser considerada como fazendo parte da familia. Recebe um dote, que os servios chamam persia. Quando a noiva já não tem pae, é o irmão que deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido não póde fazer uso. Mas, circumstancia verdadeiramente[{233}] notavel! quando uma rapariga casa sem auctorisação dos pais, a sua união é considerada legitima, pois que tem por base o amor.
Assim é que diz uma canção:
«Eu queria pedir a tua mão, mas teu pae não me quer para genro, e eu só não te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o peço eu.—Bello amigo, é inutil pedir a minha mão; meu pae recusar-t'a-ha. Não penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem amado. Tenho nove irmãos e numerosos primos; quando elles montam nos seus cavallos negros, com as suas finas espadas na mão, só vel-os causa horror. Não quero que tu morras combatendo com elles; e se fugisses, não mais te poderia ouvir. Amo-te. Chama-me, eu irei voluntariamente lançar-me nos teus braços.»
Os funeraes são, entre os servios, tão poeticos como o casamento. Quando morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem descobertos durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos e os vestidos. Os homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde o dia da morte até ao do enterro, não cessam de naritsati, quer dizer de cantar em voz alta a sua dôr, pranteando a sorte do morto e dos seus.
«Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos para o anjo luminoso[{234}] de Deus, e exclamo: Fazei com que a minha vida seja curta. Mas Deus não me escuta. E eu, ai! contemplo o oceano da vida, de que as más paixões são as vagas, e em vão desejo abordar a porto e salvamento.»
Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao cemiterio pelos amigos. Quando o féretro desce á sepultura, um sacerdote lança-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeçam a prantear longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos: é o Zaduchnitzi.
Os servios, como diz Theophilo Lavallée, formam a população christã mais importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela sua coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor á patria, usos e religião.