—Vá dizendo.
O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho que havia no escriptorio. Estava embaraçado, duvidoso de expôr o seu assumpto sem que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a attenção.
—Vá dizendo, repetiu o advogado.
—Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de má lingua, que traz todo o logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia, questões entre casados, o diabo! Mas de cara a cara ella não se mette com ninguem; é só por traz da cortina. Veiu para lá ha tres annos, comprou uma casita, e trabalha de tecedeira. Mas o que ella tece melhor são intrigas. Por sua causa estou de mal com meu sogro e com meu cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pôl-a fóra do logar, mas não sabemos a quem havemos de requerer...
E calou-se. O advogado continuava escrevendo.
—Não sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio.
O advogado não respondeu.
—Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos nós de requerer?
O advogado nem palavra.[{51}]
Mas o saloio não desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar curvando-se até quasi juntar a sua cabeça com a do advogado: