Conheço um destes; que me disse ha poucos mezes:
—Fulano, quando chegar a ministro, não faz caso de ninguem.[{109}]
—Por que?
—Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista. Você conhece de certo o Silveira?
—Muito bem.
—Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda a conversa. Ambos queriam o americano que fosse para o Rato. N'isto passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigára um só logar vazio, larga o Silveira, trepa para o americano, e diz-lhe de lá adeus com a mão. O Silveira ficou com cara de parvo.
—Mas que tem isso?!
—Ah! então você não costuma aproveitar as lições que a observação de todos os dias lhe vae deparando! Está arranjado! Aquelle americano era uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasião, tratou de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados.
—Sim. Mas não me parece...
—Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer paciencias divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas, prescindem bem dos outros.