Mas infelizmente o orador não teve ensejo de se modificar.

Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das suas esperanças e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio Machado, escriptas horas depois da catastrophe:

«Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denunciára muitas vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixões e o enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de coração, ambições quebradas, feridas do orgulho, esperanças illudidas, fortuna exhausta, crenças mortas, figuravam-se-lhe ser doenças da alma a que não era dado resistir, e não podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir vivendo cada um com o seu mal.»{34}

Ou ainda estas:

«Todavia, não sei dizer-lhes como, não sei dizer-lhes porque, elle proprio o não sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia ter gosto ás vezes em vêr desabar o edificio da sua felicidade e da sua gloria. Não era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril.»

O temperamento de Lopes de Mendonça levara-o á loucura e da loucura á morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastára-o ao carcere e do carcere ao desterro.

Ambos sobreviveram á sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos côr de rosa das imaginações ardentes, ambos dormiram nos braços da gloria as dôces horas da embriaguez terrena, ambos entraram nos salões luxuosos da vida aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava dilatar-se para os deixar respirar mais livremente.

Ambos viveram finalmente, porque um está no tumulo e outro no exilio.

Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa.

Era ainda feliz.