Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer. Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse{69} na pista a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a Londres gastou dous mezes.
Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,—para Italia; cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de touriste, em communidade de aventuras com o conde d'Obidos.
Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um bouquet. É elle mesmo quem nol-o diz:
«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»
Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.
Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas Viagens, que é o folhetim mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar, tudo{70} para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.
Quando elle publicou os Contos ao luar, sahiram-lhe ao encontro os grammaticões, os nossos graves grammaticões—que graça!—por haver attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma conjuncção copulativa.
Era certo que elle havia escripto—«... E depois, eu não sei bem porque chamei ao meu livro Contos ao luar!» Que elle, o phantasioso contista, tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.
Os grammaticões são como os diccionarios;—o que mais têem são palavras. E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres edições, para dizer tudo d'uma vez.
Já que me referi n'outro lugar ao Romance de uma alma quero acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente Julio Cesar Machado,—um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.{71}