Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas de todos os tempos e de todos os paizes—veja que ambições de erudição as minhas!—não ha{74} concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do que nas mathematicas.

Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação, mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a quarta pagina do Times.

Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção mascavada, os Tres Mosqueteiros ou a Menina do 4.º andar, que se não julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.

Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra ou da geometria.

É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás salas de espera{75} dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico, onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos cafes e nos passeios publicos.

Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo do Francoeur disse de mim para mim, para me desculpar da propria mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e alistei-me galhardamente{76} na numerosa ala dos mergulhadores, meus condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr. Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a loureirice com tres rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços, ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de todos os castigos.

Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.

Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional. Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá vindo nos enxurros da litteratura franceza.{77}

O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que fiz o papel de poeta e de folhetinista.

Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico. Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade. Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.