Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.
Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar a sua boa reputação.
Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado, ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes tão finamente epigrammatica. Assignar-se meu discipulo!... Eu, seu mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe{97} regularmente mais cousa alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.
Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe apresentaram.
A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da Popa do Navio ou para a alpha do Centauro. O que digo e sustento, em quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento à priori, como se diz na logica. O argumento{98} à posteriori está nos exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos mathematicos-artistas e dos mathematicos-executantes, theoria que, a meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos numeros e do calculo.
Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do Eurico teve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco,{99} Theophilo Braga e alguns outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.
Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.
As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da religião.
Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.
Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.