Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.
Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração. Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi, das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!
O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.
«De todos os pontos da França—escrevia o padre Passa—vos dirigem esta supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus, para se preparar para a morte.»
«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha compaixão? Rossel{173} desertára das tropas de Versailles para as tropas da communa.
Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort, espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.
Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados em que tudo será pelo melhor,—embora o melhor venha longe. Era um nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e humanas.
Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra na republica:
«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas, para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»
E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes republicanos, acrescentava:{174}