O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.

Iamos poucas vezes ao theatro.

As noites de nossa casa eram tristes.

Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada rezava ao som da minha leitura.

Não sei porque, mas eu odiava o theatro.

Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem morresse n'um espectaculo...{191}

II

Fiz exame de instrucção primaria e comecei a estudar o latim com um padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns e orações. O seu contacto dava á alma uma tristeza gelida.

Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A concentração do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e do dia de juizo. A idéa da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mãi. A criada velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.

Comecei a adoecer frequentemente.{192}