Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe excellente, o segredo não viria a descobrir-se.

Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma da outra.

Com o coração de oratorio, como um condemnado{36} que treme de todas as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que esse desejado dia chegasse.

Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio.

Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.

Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.

A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem sequer fez reparo n'esse pequenino groom de cabello louro, faces rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude{37} reverente e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.

Fôra elle, o pequenino groom louro e rosado, que lhe acommodára a orla do vestido dentro do coupé e que, fechando-o cuidadosamente, esperára, sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.

O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma creança. Ella não via, não ouvia, disse ao groom, sem fazer reparo n'elle, uma palavra. O groom saltou para a almofada com a ligeireza que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo, rasgado, batido.

As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer: