XVIII

A Lenda d'Ashaverus

Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro a protecção que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes phantasias, descontava esta esperança com vagos receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do navio uma nuvem pardacenta, e a voz de Terra! alvoroçou a tripulação, o coração de Graça Strech doidejou desde a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa da mulher.

A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria! A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o canta-storie, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua voz já cançada, mas ainda sonora, a Capuana; fóra, o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera meridional![{156}]

De repente mudava-se o quadro.

Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer!

Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da criança, e de Pietro!

A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava recebendo durante dois annos o prét por inteiro, e adiantára-lhe o prét d'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mão um documento. Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando do filho: não se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentação dos trez.

Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando elle lhe pedia que não soffresse privações sem o avisar:

—Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar a bandeira da sua lealdade.