Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.
Era perto o atelier. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha era a sua impaciencia.
—Aqui estão! disse o esculptor.
Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:
—É elle, é Pietro!
Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:
—É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: Augusta, sonatrice, la piccola! Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que andava vestidinha de preto? É pela mãe![{170}] Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar agora!
E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar.
Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.
—Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra Prometida...