—Á ponte! á ponte!

—Não ha outro caminho!

—Depressa!

Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou espavorida, e deixou-se cair nos braços da mãe, gritando dolorosamente:

—Ah! meu pae!... meu irmão!

Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de espaço a espaço, sobre um renque de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os alçapões da ponte—systema de defesa empregado em casos extremos—pensando preparar assim um desastre aos francezes que as perseguiam.

Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a[{31}] com os cavallos para o sorvedouro hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o morticinio.

Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros.

Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte algumas pessoas.

Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias.