Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multidão que, semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.
Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades, até que finalmente, escoando-se por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque, as violações e a carnificina que tristemente assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia.[{38}]
V
O juramento de vingança
As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.
Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, consummaram.
Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez, romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus esconderijos.
—Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.
—José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um tumulo.