—São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.

—E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó.

—Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José Maria.

E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da soldadesca que entrava.

Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao pavimento.

E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade.

Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta, estendendo o braço para[{40}] defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.

As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.

E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer e rapina.

Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas algumas linhas da Historia da guerra civil, de Soriano: