Alberto Pimentel.
[1] A quarta edicção, luxuosa, d'este romance, foi por nós publicada em 1900.
(Nota dos editores.)
O ANNEL MYSTERIOSO
I
O Desgraça
Entre os typos populares, que pouco a pouco vão rolando a sepulturas ignoradas, deixando após si o rasto de uma vida sobremodo accidentada de peripecias quasi sempre sombrias—rasto que só um ou outro escriptor se compraz em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue ao cemiterio—avulta na tradição portuense um homem que por longo tempo ahi foi o alvo das assuadas do rapazio e dos chascos dos frequentadores de botequim. Uns chamavam-lhe o José das Desgraças, outros simplesmente o Desgraça.
Parece dever inferir-se de tão lutuosa alcunha que a população da cidade lhe conhecia a biographia exuberante de lastimosos lances. Tal não ha. Quando elle passava coxeando arrimado ao seu bordão, sobraçada a guitarra inseparavel, de velho chapéo alto amassado, sobrecasaca abotoada, pendente a medalha de prata da guerra peninsular, annel d'ouro na mão esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle proprio manipulava com pontas de charuto, seguido do cão fiel, que se chamava Junot, por motivos que mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, ou rompia em apostrophes de Ó Desgraça! Ó Desgraça! que elle parecia não ouvir ou despresar em sua imperturbavel serenidade.[{8}]