—Pagar é um dever, padre capellão, e quanto mais[{12}] nos apressamos a fazer o que devemos tanto maior é o repouso do espirito. Bem sei que são más as circumstancias, mas é que tambem esta pobre gente se importa pouco com o calendario, e acha que todo o tempo é tempo. É que tambem não imaginam que se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e genealogias. Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capellão que eu falei no resto das rendas porque n'esta occasião não ha dinheiro em casa. Ninguem melhor o sabe, porque lhe passam os negocios pela mão. O que é certo é que eu sinto ameaços de pobresa...

—Nem tanto ao mar, senhora morgada...

—Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias Chãs, encantada nas graças d'Augusta, cerrando ouvidos ao bulicio da cidade que está proxima. Não posso fazer despezas extraordinarias, é preciso não largar a brida da mão para costear as indispensaveis.

—Os chás não são indispensaveis, senhora morgada...

—Magôa-me a sua ironia, padre capellão! Tanto mais que sabe como é limitado o serviço da nossa mesa de jogo. E depois queria que eu fechasse as minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal da nossa casa desde a mocidade de meu marido? Sabe o padre capellão como o morgado deixou as propriedades sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias e da maxima abstenção d'obras de beneficencia...

—Maxima abstenção!...

—É injusto, padre capellão! Refere-se talvez á Augusta... Não sabe que é filha de minha filha, casada por inclinação com um honrado militar do exercito portuguez, a quem não basta unicamente a sua immaculada honradez para ser feliz! Era-me impossivel soccorrer a mãe; soccorri a filha. Eu não podia ir mais longe, senão teria ido. Sempre contrariedades! Sempre o padre capellão a annunciar-me algum novo desastre! Ah! mas d'esta vez creia que não haverá desastre nem contrariedade que me véde o tirar dos hombros uma enorme responsabilidade, levando Augusta para a companhia dos seus, e minha tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo sangue e pelo coração... Em ultimo caso, recorrerei ao emprestimo...[{13}]

—Outro?

—É minha filha e meus netos que eu prejudico; o padre capellão, não. Todavia, como é para bem d'elles, elles m'o perdoarão. O padre capellão por sua propria mão recebe os juros das quantias que tem desembolçado, e creio que as propriedades que conservo fartamente abastarão ao pagamento do capital, no momento em que queira usar dos seus direitos de crédor.

—Eu não quero...