—Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...
—Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que vale.
—Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente.
—Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias[{120}] pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que ao compassivo allemão.
—E que tencionas fazer agora?
—Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a victoria das nossas armas—porque nós não podemos succumbir depois de havermos triumphado duas vezes—irei buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos até que um de nós deixe d'existir.
—Desculpa-me, Strech,—tornou o soldado condoído.—Mas eu também estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech.
Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.
Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos[{121}] com as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A serpente triumpha.
Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.