Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque, verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.

Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o Regent Street alfacinha.

Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.

Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no seculo XVIII.

Depois d'isso, alguem lembrou que já era assim chamada na primeira metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um documento digno de fé[[2]].

[2] Elementos para a historia do municipio de Lisboa, tomo IV, pag. 41. Ahi se vê que o conde de Atouguia morava «ao Chiado».

E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque é relativa á primeira década do mesmo seculo XVII: «Outras casas do bairro do Marquez ficavam situadas ao Chiado, quando se entra na rua Direita da Porta de Santa Catharina (1610)[[3]]»

[3] Archivo Nacional. Chancellaria de D. Filippe II. livro XIX, fol. 269.

Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado á antiga rua da Porta de Santa Catharina ou a parte d'ella.

O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais acerto, quasi sempre com inteira razão de ser; por isso, nome que elle ponha, péga, fica, perdura.